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Bioarte=================== Os bioartistas têm o seguinte discurso: a biotecnologia está modificando a vida de todos nós, mas a discussão sobre os seus usos está restrita aos grande$ laboratório$; nós, como bioartistas, temos como função trazer a discussão para a sociedade em geral, provocar debate etc. Perfeito não? É realmente bom. Mas... isso não passa de um discurso. Na real o que eles fazem é espetáculo que ao invés de problematizar a questão acaba naturalizando tudo. Diante do coelho de Kac, as pessoas não pensam "é preciso politizar o debate" mas sim "quanto custa? posso ter um pra mim?" O Kac provavelmente considera isso um debate. Mas que debate é esse? Sobre o texto de uma canadense na última nada. Foi tipo a gota d'água. Além de muito inconsistente teoricamente e de gosto duvidoso, ele demonstra uma insensibilidade extrema pela vida com a qual se está trabalhando. Parece que a bioarte é mais "arte" do que "bio", no sentido de que as pessoas tratam os tecidos e seres vivos como se fossem objetos à disposição para qualquer manipulação (exatamente como o fazem os cientista$) e não como seres com alguma interioridade. Nesse sentido é revelador um trabalho como o da Piccini, pois dá o efeito contrário. Pelo cuidado da artista em lhes dar vida, eles "parecem" mais vivos do que os seres vivos da bioarte, que são tratados como objetos. =================== Uma coisa que me incomoda nos artigos de bioarte é que eles dizem provocar debate mas no final apenas celebram a biotecnologia e naturalizam aquilo que deveria ser questionado. Ou seja, há todo um discurso (visivelmente capenga) de politização mas nas entrelinhas se entrevê um clima meio "oba, olha que legal essa técnica!"; "Nossa! que bonito esse gráfico!" etc., e dá-lhe seres vivos (ou quase) servindo de espetáculo, e dá-lhe listagens fetichistas de técnicas e procedimentos laboratoriais e de programação, e dá-lhe biotecnologias penetrando molecularmente na vida das pessoas como show pirotécnico. Nada contra técnicas legais e gráficos bonitos (eu até adoro um gráfico bonito), mas então pra que o discurso de fachada, não é mesmo? =================== O que é ética? Eu não sei. Tenho uma vaga idéia, muito influenciada pela leitura deleuziana de espinosa, mas é tudo coisa vaga. Acho esse um terreno pantanoso. Na prática, parece que ética é só mais uma maneira de fazer política. Minha "crítica" à bioarte se concentra na postura celebratória da bioarte, e em como essa postura é recalcada e disfarçada por seu discurso. Se é pra criticar a manipulação genética, se é para conscientizar, problematizar, etc, então tem alguma coisa errada, pois isso é a última coisa que essa arte faz. Por outro lado, se é para celebrar a beleza e o fascínio da biotecnologia, então pra que o discurso? Resumindo, parece que os bioartistas querem se divertir no laboratório e fazer coisas curiosas e fascinantes mas sentem uma necessidade meio mal explicada (mas perfeitamente compreensível) de justificar sua própria diversão com discursos que nada têm a ver com o que realmente fazem. A ética entra aqui apenas como um verniz. Por isso acho que a verdadeira questão não é a ética, mas sim o que esse discurso está escondendo, i.e., uma prática celebratória que não quer se assumir como tal. =================== Preciso deixar claro que as biotecnologias também me interessam. É um tema central da contemporaneidade, e que determinará o futuro da humanidade. Mas não acho que a bioarte (pelo menos aquela que eu conheço) seja capaz nem de iniciar qualquer reflexão sobre as biotecnologias. Trata-se, na minha opinião, de pura celebração. "Oba!" etc. Eu ainda não vi uma bioarte que não fosse celebratória, que não tivesse como subtexto determinante: "olha que legal que fizemos aqui!" Não tenho nada contra celebração, apenas chamo a atenção para o recalcamento discursivo, totalmente compreensível aliás, que os bioartistas parecem se sentir compelidos a operar, por servirem (conscientemente ou não) como agentes celebratórios da manipulação tecnocientífica da vida. Acho que deve ser complexo de culpa dos bioartistas. Nesse caso, acho que eles deveriam se tratar. Ou talvez seja uma maneira que eles encontraram de dar algum sentido às suas obras para além da pura celebração. Nesse caso eu acho que eles deveriam se esforçar mais, pois as justificativas que vi até agora mais parecem publicidade gratuita para as empresas de biotecnologia do que qualquer questionamento eficaz de seus procedimentos. Acho interessante que são justamente os artistas que trabalham com o tema da biotecnologia sem usar seres vivos aqueles que, de fato, vão mais longe no questionamento. No fim, parece que o debate em torno das biotecnologias prescinde completamente de qualquer uso direto delas. Um texto, uma escultura de cera, um quadro, um vídeo, tudo isso pode servir para tratar do tema da biotecnologia, e parece fazê-lo com muito mais competência do que aqueles que insistem em tentar imitar (muy ingenuamente) ou seguir os biotecnólogos. =================== Eu discordo da imagem dos info-bio-artistas como cientistas em laboratórios ou tecnólogos em oficinas (mais do que como artistas em ateliês). Justamente, se isso ocorresse, talvez eles perdessem o sentimento de culpa e a necessidade de se justificar. Artistas dizendo ser cientistas é coisa comum desde o início do século passado, e isso nunca dependeu de eles frequentarem laboratórios ou vestirem toucas e aventais mas sim de trabalharem com as potências estéticas do mundo tecnocientífico. Em outras palavras, não imitar ou perseguir cientistas como crianças, sempre um passo atrás, mas sim fazer uma outra coisa daquilo que eles fazem, sempre um passo à frente. Eu concordo totalmente com a valorização do empirismo, pois também acho que nada substitui a prática, que toda teoria nasce da experiência, que é na prática que nos deparamos com questões que nunca seríamos capazes de prever. No entanto, existem práticas e práticas, e na maior parte das vezes só percebemos aquilo que estamos preparados para perceber. Por isso, não creio que o empirismo deleuziano seja alcançado apenas entrando em laboratórios, manipulando pipetas e seguindo cientistas – uma diferença entre Deleuze e Latour. Muito pelo contrário, o "empirismo" da bioarte atual (que eu conheço mal, é sempre bom lembrar), do laboratório, do avental, dos procedimentos técnicos, parece muito mais um fetichismo celebratório que já sabe o que vai encontrar (coisas super legais, ótimas, intrigantes, interessantíssimas etc) do que uma pesquisa séria acerca do desconhecido da biotecnologia. Não acho, enfim, que a arte dos Chapman (ou de outros como a Laramée ou o caso estudado pelo André Favila) seja necessariamente "ainda metafórica" ou "simbólica ainda" (apesar de entender o que vc quer dizer), justamente pois acredito que a "guerra" está sendo vivida por todos nós, dentro ou fora dos laboratórios, basta sermos capazes de distinguir as verdadeiras batalhas da mera pirotecnia publicitária (e mesmo na pirotecnia publicitária há verdadeiras batalhas, mas é preciso ser capaz de as discernir). No final, o problema não parece ser o "princípio" do uso ou não de seres vivos e biotecnologias para fazer arte. O problema é o "fato" de que quem faz isso, na minha opinião, não chega nem perto dos objetivos declarados, antes faz uma coisa e diz outra. Em outras palavras: ainda estou esperando (sem muita esperança, aliás) uma verdadeira bioarte, pois o que já conheço não me convence e não chega aos pés do que já foi feito sobre os mesmos temas sem usar biotecnologia e sem manipular seres vivos. Será que desse mato ainda sai algum coelho que não seja apenas (e no máximo) mais um ícone publicitário fluorescente? =================== Será que que ainda sai um coelho não-kaciano do tecnomatagal da bioarte? Eu proporia uma alternativa à sua divisão tripartida da bioarte. Ao invés de uma divisão baseada no suporte ou no procedimento (pois estou disposto a aceitar que qualquer suporte ou procedimento é válido desde que bem utilizado), eu proporia uma divisão baseada na potência. Assim, segundo minha divisão, existiriam biobras potentes, capazes de transformar a relação do público com o mundo (obras que revelam o nunca visto, o nunca pensado), e biobras impotentes, capazes apenas de reafirmar valores dominantes (obras que trabalham com o que já se conhece). Se a minha divisão dualista fizer algum sentido, então sugiro que a potência da biotecnologia com a qual estão trabalhando alguns poucos artistas é o limiar entre o controle e o descontrole pelo ser humano de seu próprio futuro. A questão é: "Onde vamos chegar desse jeito?" Esses artistas vão muito além dos impotentes pois ao trabalhar com quadros e esculturas, eles revelam com muito mais propriedade as potências que nem mesmo os mais avançados cientistas (quanto mais os artistas que tentam acompanhar muito atrás os seus procedimentos técnicos) ainda percebem. Eles percebem o imperceptível da biotecnologia mas não parecem encontrar nelas meios eficazes para torná-lo perceptível aos demais mortais, daí usar as artes plásticas. Eu sinto muito mais potência em uma escultura de cera que retrate com potência possíveis formas de vida e que me desperte para as virtualidades da biotecnologia do que para uma cultura de bactérias coloridas ou o que quer que o valha que me faz lembrar as aulas de química do colégio. A boa arte, a arte potente, na minha opinião inspira a realidade, que corre atrás dela, e não o contrário. Quanto ao trabalho interdisciplinar em equipe, parece ótimo na teoria mas eu sou cético quanto aos resultados práticos. Acho que não há abertura na ciência para o trabalho artistico realmente potente. A ciência tem compromissos irredutíveis que não podem ser compartilhados pela arte. =================== Não há espanto na bio-tecno-arte que eu conheço, o espanto que força a pensar. Acho que é isso. O máximo que há é beleza, curiosidade e polêmica. Muito pouco para mim. Mas talvez eu esteja insistindo em um erro. =================== Roy Ascott: "Penso que os artistas podem de facto proporcionar uma reflexão ética através das obras que expõem. Como Oron Catts, que consegue estabelecer uma plataforma de debate sobre a engenharia genética e as suas implicações políticas. Penso que se passa o mesmo com Eduardo Kac, cujo coelho é uma grande sensação nos média, ao tentar compreender como se poderia socializar tal quimera. Como é que se socializaria um híbrido?" (p.28) Socializar híbridos? Quem ganha com isso? Não sei o que Ascott chama de "reflexão ética", tampouco de "estratégias tecnoéticas" (p.28), mas sou de opinião que nenhum desses bioartistas que brincam com seres vivos estão fazendo mais do que amortecer de maneira inconsequente (mesmo apenas limitando-se a correr atrás dos cientistas e trabalhando apenas com aquilo que eles permitem e do jeito que eles permitem) o público diante de mutações e da exploração (exploitation, não exploration) da vida. O laboratório vira um espetáculo e as perguntas que ainda não foram formuladas dão lugar a respostas apressadas a falsos problemas. Não vou insistir nessa crítica aqui, mas vale citar uma frase que parece sintetizar o conformismo (muito longe de qualquer xamanismo, na minha opinião) desse tipo de arte diante do mundo contemporâneo: "A ciência [...] vai para onde o dinheiro estiver. E normalmente servirá para colonizar, obstruir e regredir, da mesma forma que serve a saúde e a medicina. É a vida." (p.27) É a vida? =========================== Hauser: "a bioarte [...] é [...] comparável a um livro que quase ninguém leu, mas do qual o público em geral já ouviu falar e o qual é discutido para além dos limites do género ele mesmo" (p.85). Sem a pretensão de ter entendido a argumentação "paratextual" que envolve essa passagem, gostei da imagem, pois parece isso mesmo. O que acontece quando pessoas se metem a debater um livro que não leram? Falam besteiras e não saem do senso comum e da opinião pessoal sem fundamento no próprio objeto do debate. Pois bem, o que os bioartistas chamam de "conscientização", "politização" e "debate" não parece ir além disso. Transformar rapidamente toda novidade polêmica em senso comum e indiferença é o que o capital aliado à tecnociência mais quer, e os bioartistas são os ávidos agentes legitimadores desse processo, vendendo o consenso sob o rótulo da crítica. ================================== ![]() ![]() |