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Preto são todas as cores, branco é ausência de cor!![]() 12/04/2009 Meu amigo Jacopo me convidou para escrever um texto para o encarte do novo álbum do Squarcicatrici em meio a uma conversa cujo o contexto era o da mais recente crise do valor especulativo do capitalismo financeiro em seus desdobramentos culturais, políticos, religiosos, e como isso tudo afetava a experiência de mundo individual de pessoas comuns como eu e você. Jacopo me pedia um texto sociológico em português, para que um outro ponto de vista, um outro olhar, um olhar de fora, fosse inscrito no papel registrando uma mensagem do tempo presente. Na mesma semana um acontecimento me chamou atenção e me fez ver que não seria possível escrever um texto sociológico. A atual crise é muito mais que uma crise do capitalismo enquanto sistema econômico. Trata-se de uma crise do capitalismo enquanto sistema teológico, sistema cultural do mundo branco euro-americano. A sociologia, por ter sua matriz no pensamento europeu, por ser uma ciência que serviu muito bem aos colonizadores na árdua tarefa de entender o quê e, sobretudo, como os selvagens colonizados pensavam, sempre com o intuito de melhor dominá-los e melhor explorá-los, é insuficiente para tratar da questão A situação se inverteu – uma crise do valor especulativo do capitalismo financeiro é antes uma crise da capacidade de especulação, seja no sentido de interpretação do movimento da história, seja no sentido de predição deste movimento. É uma crise de futuro, crise da capacidade de pensar, imaginar e projetar futuros possíveis. Sendo assim, é preciso dar espaço para novas linguagens e novos sistemas de pensamento. Como disse Glauber Rocha, chegou a hora de ouvir a voz do Terceiro Mundo. Sim, Terceiro Mundo e nem me venha com o deprimente e inaceitável discurso politicamente correto. País em desenvolvimento... qual desenvolvimento, cara pálida?!?!?! O politicamente correto é um perverso dispositivo linguístico que precisa ser desmontado, serve apenas ao interesse do mais forte, do opressor, atenuando para ele mesmo o peso da violência que exerce. Terceiro Mundo não é o mundo que está para trás, subdesenvolvido, é o mundo do Terceiro Milênio cantado e sonhado tropicalmente há mais de 30 anos por Jorge Ben. O Brasil já foi ironizado como o eterno país do futuro, como promessa de “desenvolvimento” que nunca se realizaria, mas hoje isso não faz diferença, pois se o Brasil não atingiu um certo futuro imaginado pelas elites brancas do mundo euro-americano, podemos dizer que o mundo branco euro-americano atingiu um certo futuro que é Brasil. E não só Brasil: é Bolívia, é Índia, é Malásia, é Sudão, com pobreza, miséria, desemprego, desordem e decepção. Porém, com uma pequena grande diferença: os que se modernizaram com “sucesso” o fizeram ao preço de seus vínculos tradicionais com sua terra. O processo de produção do queijo parmeggiano-reggiano foi totalmente informacionalizado e já é reproduzido sem grandes diferenças na fronteira do Brasil com o Uruguai. Os subdesenvolvidos, não. Nós somos índios, a precariedade é nossa vantagem. Preto são todas as cores, branco é ausência de cor! O acontecimento que me atordoou e me fez ver as coisas de outra forma foi a ordem que Mr. Obama emitiu pessoalmente autorizando a execução de três piratas somalis no ato da entrega de um ex-refém no dia 12 de abril. Obama abre com chave de ouro sua carreira de assassino-em-chefe direcionando sua killingry machine justamente para o chifre da África. Somália - terra arrasada por guerras estrangeiras, disputas realizadas pelas potências colonizadoras, terra arrasada pela ocupação americana no início dos anos '90. No imaginário branco, a cena é triste, cenário do fim de mundo: negros muçulmanos pobres famintos. Desordem, anarquia e caos. Porém, no chifre da África, na Somália, na Etiópia, na Eritréia, no Iêmen, nos deparamos com um dos berços da humanidade, terra pela qual (todos) precisamos e deveríamos nutrir um respeito ancestral. Quem tem ancestralidade tem futuro e isso é algo que precisamos entender rápido se quisermos escapar da condição “no future” que as futuras ex-potências brancas euro-americanas modernas e pós-modernas querem nos impor. Pirata, terrorista, traficante, imigrante ilegal. Estas categorias precisam ser muito bem relativizadas sempre que enunciadas, precisam ser reinterpretadas. Se isso não faz sentido para você, provavelmente você não é o coro que recebe esta chibatada. Essas categorias são tão usadas que nem prestamos atenção e nem notamos como atuam politicamente na manutenção do aparthaide entre pessoas e povos. Obama é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, e seu primeiro ato militar foi ordenar a execução de três negros africanos, três piratas. O Iraque foi destruído, o Afeganistão está sendo reocupado, o Paquistão sangra, a Palestina é soterrada, os muçulmanos são discriminados no mundo inteiro com a justificativa do combate ao terrorismo. A Colômbia é refém de uma violenta política proibicionista americana, mexicanos são cassados nos desertos do Arizona, na periferia de São Paulo Paraisópolis está sitiada em nome do combate ao narcotráfico. Na Europa branca, na Europa capitalista, na Europa Ocidental, na Europa Atéia, quando as estruturas do neoliberalismo começam a mostrar suas fraquezas, quando a conta desta orgia sem gozo é cobrada, os imigrantes são eleitos os culpados, todo estrangeiro é suspeito. Berlusconi quer escanear as solas dos pés das crianças ciganas nascidas na Itália. Reflita: isso é solução para qual problema? Todo imigrante ilegal é um refugiado político. “We are here, because you were there”. Nós, imigrantes ilegais, terroristas, traficantes, piratas, filhos do Terceiro Mundo, estamos aí porque vocês estiveram aqui, roubando nossa terra e nos deixando fronteiras como herança. Meus antepassados colonizadores portuguêses diziam que meus antepassados indígenas não tinham nem fé, nem lei, nem rei. É vero, mas os infelizes não tiveram inteligência, ou, pior, sensibilidade, para perceber que também não tinham pecado, desigualdade e eram livres – tinham outros defeitos, mas, reflita, esses, não. A crise do capitalismo de ponta, a crise teológica, crise do pensamento do mundo branco, é uma oportunidade de esperança para todos, inclusive para os brancos. É uma oportunidade de frearmos a killingry machine capitalista, que mobiliza toda energia e inteligência do mundo para produzir morte e matança para humanos, animais, florestas, rios, mares, ares... Por isso, apesar da violência de tudo aquilo que foi dito, a mensagem é de esperança. Na América Latina a crise é sentida de maneira diferente: o povo boliviano nunca teve tanta oportunidade de reestabelecer uma relação digna com sua terra, o povo do Equador estabeleceu em sua nova constituição os Direitos da Natureza, aos quais os direitos humanos estão submetidos. Porém, mais importante que isso tudo, mais importante que a ficção difundida pela videopolítica, mais importante que os grandes personagens Lula, Evo e Chavez, é que ainda há povo e há terra, nossos antepassados estão vivos, temos futuro. Mãe Stella de Oxóssi, mãe-de-santo de uma das mais importantes casas de Candomblé da Bahia, disse certa vez, a respeito da obra dos colonizadores que escravizaram seus antepassados em África: apesar de todo o sofrimento, apesar da tortura, ela agradecia pelo que fizeram, pois, apesar de tudo, haviam dado a oportunidade aos Orixás atravessarem o oceano e brilharem ainda mais. Não é fácil compreender este enunciado, mas ele aparece aqui justamente para mostrar que a esperança de que falo não é uma revanche, muito menos uma vingança. Não é uma esperança de uns à custa da miséria de outros. É esperança para todos. Para um branco, isso pode até ser difícil de entender, mas é tempo justamente de dar atenção ao que não entendemos, ao que é definido como sem sentido, definido como sem valor. Quando não temos nada mais a perder, temos tudo! |