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Considerações metodológicas acerca da Terra Incognita : Sociologia da Tecnologia e a perseguição de seu objeto.

CAMINATI, F. A.; Considerações metodológicas acerca da Terra Incógnita: Sociologia da Tecnologia e a perseguição de seu objeto, 10/2008, 32º Encontro Anual da ANPOCS,Vol. 1, pp.1-3, Caxambu, MG, Brasil, 2008

Desde o início de minha pesquisa, que consiste em uma etnografia do software livre para pensar suas relações com a axiomática capitalista, a definição do 'objeto de pesquisa' vem sendo um problema complexo. Tal condição suscitou alguns dilemas, pois como pode uma pesquisa ser realizada em torno de um objeto indefinido? Em todas as ocasiões nas quais a formalização ou objetivação da pesquisa foi exigida de maneira mais sistematizada tendo em vista mediações institucionais – seleção para ingresso no Mestrado, solicitação de financiamento à Fapesp, exame de qualificação e passagem ao Doutorado – , experimentei uma inquietante sensação de descompasso : os textos produzidos, a despeito de bem sucedidos em relação a seus fins objetivos, logo após sua conclusão, pareciam obsoletos em relação às novas conformações que o objeto recém descrito adquiria. Problema grave e inadiável, uma vez que se propunha a problematização de um acontecimento contemporâneo e parecia que não se compartilhava de seu tempo, de sua duração.

A partir dessas experiências (desgostosas), passou a ser indispensável a reflexão sobre a natureza do objeto. Foi preciso, então, incorporar como metodologia à pesquisa a problematização da dificuldade de identificar no objeto suas propriedades de 'objeto', ou seja, descrever os limites, as repetições e as recorrências de seu desdobrar de maneira 'estável' no tempo – em suma, reduzí-lo a um estado. Esta dificuldade advinha do grau de sua intensidade de variação e tornava complexa a apreensão de seus padrões de atualização. A tática escolhida para lidar com essa dificuldade foi (e vem sendo) tratá-la não como um limite, mas como ponto de partida, visando justamente acompanhar as forças que atuam na transformação do objeto, procurando identificar quais virtualidades e indeterminações são apreensíveis enquanto tendências. Nesse sentido, a contribuição teórica de Gilbert Simondon em sua re-elaboração do conceito de informação, desviando o foco da transmissão para a tomada de forma/atualização, e também seus conceitos de tecnicidade, modo de existência, metaestabilidade e individuação foram (e são) fundamentais para a percepção e formulação da problemática nestes termos.

Definida a tática da pesquisa, restava ainda o desafio do pesquisador conseguir tornar-se efetivamente contemporâneo de um objeto que se transforma aceleradamente. E, neste caso, tratava-se de compartilhar do tempo de sua transformação e do tempo de sua intensidade de transformação. Assim, a pesquisa passou a se aproximar mais de uma 'perseguição' do que de uma investigação. Afinal, ao invés de recolher dados e projetar uma interpretação sobre um objeto, é exigido ao pesquisador que siga acontecimentos e tendências e 'se projete' com o objeto para produzir descrições.

A escolha desta tática de pesquisa fez com que boa parte das minhas projeções iniciais – que integravam os inesgotáveis projetos que um estudante de pós-graduação precisa produzir hoje em dia – fosse revista, a começar pelos dois elementos que compunham o eixo da problemática : software livre e capitalismo. E, diante da impossibilidade de produzir explicações que dessem conta da definição dos termos, passei a orientar a pesquisa para aquilo que se passava entre eles, para a maneira que se constituíam quando associados, ou seja, para a especificidade do agenciamento inaugurado pela relação. Desloquei-me, assim, a uma terra incognita, às zonas cinzentas e indecidíveis da problemática, aos territórios indefinidos de confusão de categorias e disputas. A proposta que faço para o GT “Novos modelos comparativos: antropologia simétrica e sociologia pós-social” é a de apresentar os desdobramentos destas questões metodológicas no desenvolvimento de minha pesquisa de Doutorado, expondo a descrição de um acontecimento – a aquisição, pela Nokia, em janeiro de 2008, de uma empresa que desenvolve em parceria com uma comunidade uma importante e estratégica tecnologia 'open source' –, retomando e problematizando os agenciamentos teóricos e das técnicas etnográficas mobilizadas na composição de sua análise. Por fim, como esta pesquisa se insere em um dos ramos da Sociologia que, na linguagem da gestão da produção acadêmica – vide a Plataforma Lattes e sistema SAGe da Fapesp – integra o grupo das 'Outras Sociologias Específicas', um grupo marginal, caberá então problematizar o quanto a ausência de institucionalização e a disposição em pensar os objetos técnicos a partir de suas redes de constituição e modalidades de socialidade que inauguram ao invés de suas relações de propriedade e utilização, corroboram para a constituição de um território aberto à experimentação e cruzamento de práticas de conhecimento diversas e avaliar sua potência de problematização da realidade social contemporânea.


Por quê perseguição?


Cenários

Scenarios are not to predict the future, not to plan – they help structuring your mind.

Page last modified on 24 de agosto de 2010, às 17h48
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