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Propostas para o estudo da música eletrônica de pista

Pedro P. Ferreira
2006-7

"Música eletrônica de pista" é como se convencionou traduzir electronic dance music no Brasil. A "pista" a que o termo faz referência é obviamente uma pista de dança, mas é também menos obviamente uma pista mais abstrata, na qual se "viaja" ao som da música.

Existem muitas maneiras de definir "música eletrônica de pista". A que aqui adotarei parte de três critérios, que serão retomados ao longo deste texto, que me parecem ser necessários e suficientes para circunscrever esse tipo de música como um objeto acessível aos sentidos e ao intelecto:

  • a música eletrônica de pista está necessariamente relacionada à dança;
  • na música eletrônica de pista há uma disjunção técnica entre a fonte energética do som (a rede elétrica) e a sua modulação informacional (aquele que controla o som);
  • a música eletrônica de pista tende a privilegiar dimensões inconscientes e a-significantes da experiência sonoro-motora.

Se por um lado nenhum dos três critérios basta, sozinho ou em duplas, para definir o conceito aqui adotado de música eletrônica de pista, por outro os três tomados em conjunto bastam para defini-lo inequivocamente. Vejamos então brevemente como a música eletrônica de pista - doravante MEP -, assim definida, se originou historicamente e chegou a ser aquilo que é hoje.

Anos 70: emergências

A MEP surge em meados dos anos 70, pois foi nessa época que as tecnologias de gravação, reprodução e síntese sonora passaram a ser usadas por DJs para resolver de maneira sistemática o problema de controlar o movimento e a empolgação de suas pistas de dança. Assim, é nos anos 70 que os três critérios distintivos supracitados da MEP convergem e iniciam sua coevolução.

  • a emergência da função do DJ - antes fortemente associado às funções de locução radiofônica e entretenimento oral - como mediador entre o movimento atual da pista de dança e o som a ele associado;
  • a emergência de um conjunto específico de máquinas - e.g. toca-discos com controle contínuo de velocidade (pitch), mixer com monitoração por fones de ouvido, sintetizadores (de ritmos e de tons), sistemas de amplificação que ultrapassassem os 80-90 dB com fidelidade aceitável em todo o espectro de freqüências (especialmente aquelas abaixo de 500Hz) - capazes de colocar o DJ em condições de experimentar sistematicamente com os processos mais ou menos espontâneos de convergência entre os sons de que ele dispunha os movimentos coletivos que tipicamente os acompanham.
  • a emergência de processos técnicos específicos - e.g. técnicas de edição em fita magnética, técnicas de turntablism, elaboração de seqüências estratégicas e eficazes de sons, ritmos, timbres ou músicas (breakbeat science, remix, sets) - voltados mais para a eficácia funcional da música na produção da dança do que para suas qualidades expressivas extra-motoras.

À medida que cada um desses três critérios emergia e convergia com os demais durante os anos 70, o DJ de MEP ia gradualmente se diferenciando dos músicos convencionais - que tendem a tocar instrumentos e mesmo máquinas de maneira expressiva - e a MEP ia se singularizando pela sua ênfase no controle técnico do efeito sonoro-motor da dança. Os dois principais legados dos anos 70 para a MEP atual são: o pulso constante e metronômico que veio a definir o estilo Disco e depois a House; e a breakbeat science, manipulação habilidosa e estratégica de passagens rítmicas (breaks) aperfeiçoada principalmente por DJs de Disco e de Hip-Hop.

Anos 80: consolidações

Poderíamos dizer que a MEP emerge como estilo musical explicitamente distinto apenas com o surgimento da House na primeira metade dos anos 80, pois até então as gravações manipuladas pelos DJs ainda tendiam a ser encaradas como o resultado de performances musicais expressivas por instrumentistas convencionais. Foi apenas com o uso sistemático do pulso constante e metronômico de sintetizadores de ritmos e da repetição estratégica de trechos de múltiplas gravações no estilo House que o som que saía pelos alto-falantes deixou explicitamente de corresponder a uma performance musical passada, soando cada vez mais como o som de um movimento presente.

O estilo House pode ser encarado, portanto, como a consolidação daqueles processos que tiveram início nos anos 70 e que fazem dela a primeira manifestação explícita da MEP, resultado da consolidação de um princípio formal básico: a alternância entre (1) blocos musicais de pulso constante - no qual a métrica da música é explicitada na forma do som mais grave e intenso de todo o espectro sonoro (i.e. o bumbo) - e (2) trechos curtos de quebras rítmicas chamados de breaks - nos quais o pulso constante é suprimido e a síncope é valorizada -, tudo sempre submetido à precisão metronômica da máquina - que permite a sincronização controlada e sistemática de diferentes gravações.

O efeito genérico da alternância pulso/break é a produção controlada de tensões e resoluções em campos de ressonância sonoro-motora compostos pelo som que sai dos alto-falantes e pelos movimentos coletivos da pista de dança que lhe correspondem. Duas importantes conseqüências da metronomização generalizada do andamento musical foram o controle maior sobre a sincronização de gravações diferentes e a consolidação de intervalos quantificáveis de velocidades dentro dos quais a música variava e fora dos quais ela tendia a perder o seu potencial motor (geralmente entre 110 e 140bpm na House dos anos 80).

Foi durante os anos 80 que a alternância metronômica pulso/break evoluiu rumo a uma eficácia cada vez maior na produção da dança, culminando, no final dessa década, na explosão global das raves.

Anos 90: multiplicações

Quatro coisas importantes ocorreram na MEP ao longo dos anos 90: (1) uma vertiginosa e generalizada aceleração de seu andamento musical - com estilos como o Hardcore Techno (140-150bpm), o Jungle (160-180bpm) e o Gabba (200-300bpm) -; (2) sua segmentação em dezenas de estilos, subestilos, subsubestilos etc.; (3) a consolidação da edição digital apenas iniciada na década anterior (samplers e computadores); e (4) o surgimento e a explosão global do Drum'n'Bass, estilo que se caracteriza pelo ritmo sincopado - quebrando a hegemonia do pulso constante - e pela coexistência de dois andamentos alternativos, um a 70-90bpm e outro a 140-180bpm.

O conceito de MEP aqui adotado se mostra especialmente vantajoso no contexto de extrema segmentação da MEP década de 90, pois permite a clara distinção entre as vertentes que continuam o processo coevolutivo som-movimento distintivo da MEP (geralmente aquelas caracterizadas pela repetitividade, pela ausência de vocais e pelos timbres sintéticos) e aquelas vertentes que tendem a se distanciar dele rumo a uma musicalidade mais convencional centrada em performances musicais por instrumentistas e na expressividade.

Em geral, pode-se dizer que a MEP dos anos 90 se caracteriza por velocidades mais elevadas do que as da década anterior (privilegiando o intervalo entre 130 e 160bpm) e por um deslocamento da inovação da alternância pulso/break (que praticamente não mudou formalmente desde a década anterior) para processos de filtragem e modulação contextual do som. Além disso, algumas variações resultantes da multiplicação de estilos da MEP dos anos 90 (em especial aquelas identificáveis pelo rótulo breakbeat) passaram a evoluir no limite entre o dançável e o indançável (pelo uso de velocidades que excedem aquelas de preferência e de descontinuidades que dificultam a sincronização som-movimento), ampliando o leque de experiências sonoro-motoras exclusivas à MEP.

Referências

Page last modified on 21 de março de 2007, às 03h04
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