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!!Véus e secularismos na literatura

%center% http://1.bp.blogspot.com/_WAAgzmZs2jc/SAVW2BzlGxI/AAAAAAAAB4c/fSDl8AnwJUw/s400/ORHAN%2BPAMUK.jpg


''Talvez não haja forma de expressar mais radicalmente uma realidade se não for pela perspectiva literária. Por isto, segue trecho do romance'' Neve'', de Orhan Pamuk, ganhador do Nobel de literatura no ano de 2006.''

''O livro em questão retrata a saga de um poeta que, ao retornar à sua cidade natal para produzir uma reportagem sobre uma onda de suicídios entre jovens muçulmanas, vê redescoberto seu amor pela bela Ipek, enquanto percebe-se imerso em um conflito político intenso entre secularistas e militantes islâmicos. Evidências de um [[http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u62069.shtml|conflito]] entre a secularização e a teocratização do Estado que tomou novo fôlego na recente história política da Turquia, terra natal de Pamuk, e que explora os problemas do radicalismo dos dois lados em destaque no conflito.''

''O trecho a seguir encontra-se no capítulo 14. É a fala de Hande acerca das pressões sobre seus atos e opiniões, e sobre o suicídio de sua amiga, Teslime.''

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"Por que você não conta a história, Hande?", disse Kadife. "Não há nada do que se envergonhar."

"Não, não é verdade. Há muito de que se envergonhar, e é por isso que quero falar sobre ela", disse Hande. Seus grandes olhos brilharam com uma alegria estranha. Ela sorriu como recordando um momento feliz e disse: "Faz exatamente quarenta dias que nossa amiga Teslime se suicidou. De todas as moças de nosso grupo, Teslime era a mais dedicada à luta pela religião e pela palavra de Deus. Para ela, o manto não era apenas um símbolo do amor a Deus: ele também proclamava sua fé e defendia sua honra. Nenhuma de nós jamais poderia imaginar que ela iria se matar. Apesar da pressão que sofria na escola e em casa para que se descobrisse - seu pai e seus professores não lhe davam trégua -, Teslime resistia bravamente. Ela estavva para ser expulsa da escola em seu terceiro ano de estudos, já perto de se formar. Então um dia seu pai foi procurado por gente da polícia; disseram-lhe que se ele não mandasse a filha para a escola sem o manto na cabeça, eles fechariam sua mercearia e o expulsariam de Kars.

"O pai a ameaçou de expulsar de casa, e quando essa tática falhou, ele começou a negociar o casamento dela com um policial de quarenta e cinco anos que perdera a mulher. As coisas tinham chegado a um ponto que o policial vinha à loja trazendo flores. Teslime ficou tão revoltada com aquele viúvo de olhos cinza, como ela própria nos contou, que estava pensando em descobrir a cabeça, se isso a pudesse livrar daquele casamento, mas ela simplesmente não conseguia tirar o manto.

"Algumas de nós concordaram que ela devia descobrir a cabeça para evitar se casar com o viúvo de olhos cinza, e algumas de nós dissemos: 'Por que você não ameaça seu pai com o suicídio?'. Eu fui uma das que mais a incitaram a isso. Eu não queria de modo algum que Teslime abandonasse o manto. Não sei quantas vezes disse a ela: 'Teslime, é muito melhor se matar do que descobrir a cabeça'. Mas eu dizia isso da boca pra fora, era só uma maneira de falar. Nós acreditávamos no que os jornais diziam - que as jovens suicidas se mataram porque não tinham fé, porque eram escravas do materialismo, porque eram infelizes no amor; o que eu estava tentando fazer era dar um susto no pai de Teslime. Teslime era uma jovem piedosa, por isso achei que ela nunca pensaria seriamente em suicídio. Mas quando ouvimos que ela se enforcara, fui a primeira a acreditar. E, o que é pior, eu sabia que, se eu estivesse em seu lugar, teria feito a mesma coisa."

(...)

"Quando eles notaram que muitas de nós estavam usando mantos na cabeça, mandaram uma mulher de Ancara para tentar nos convencer a tirá-los. Essa 'agente de persuasão" ficava na mesma sala horas a fio, conversando com cada uma de nós em particular. Ela perguntava coisas como "Seus pais batem em você? quantos irmãos você tem? Quanto seu pai ganha por mês? Que tipo de roupa você usava antes de adotar o traje religioso? Você gosta de Atatürk? Que tipo de quadro vocês têm nas paredes de sua casa? Quantas vezes por semana você vai ao cinema? Em sua opinião, os homens e as mulheres são iguais? Deus é maior do que o Estado, ou o Estado é maior do que Deus? Quantos filhos você quer ter? Você sofreu maus-tratos em casa?'. Ela nos fazia centenas de perguntas como essas, e anotava todas as nossas respostas preenchendo um longo formulário sobre cada uma de nós.

"Ela era uma mulher muito elegante - unhas pintadas, cabelos tingidos, cabeça descoberta, claro - e usava o tipo de roupa que a gente vê nas revistas, mas ao mesmo tempo ela era... como dizer?, simples. ainda que algumas perguntas suas nos fizessem chorar, nós gostávamos dela. Nós até torcíamos para que as ruas sujas de Kars não lhe causassem muitos problemas. Depois comecei a vê-la em meus sonhos. A princípio eu não prestava muita atenção neles, mas agora, sempre que tento imaginar-me andando por entre a multidão com os cabelos flutuando à minha volta, vejo-me como a 'agente da persuasão'. Nos olhos de minha mente sou tão elegante quanto ela, usando salto alto e vestidos ainda mais curtos que os dela, e os homens me olham com interesse. Acho isso agradável - e ao mesmo tempo muito vergonhoso."
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!!Véus e secularismos na literatura

%center% http://1.bp.blogspot.com/_WAAgzmZs2jc/SAVW2BzlGxI/AAAAAAAAB4c/fSDl8AnwJUw/s400/ORHAN%2BPAMUK.jpg


''Talvez não haja forma de expressar mais radicalmente uma realidade se não for pela perspectiva literária. Por isto, segue trecho do romance'' Neve'', de Orhan Pamuk, ganhador do Nobel de literatura no ano de 2006.''

''O livro em questão retrata a saga de um poeta que, ao retornar à sua cidade natal para produzir uma reportagem sobre uma onda de suicídios entre jovens muçulmanas, vê redescoberto seu amor pela bela Ipek, enquanto percebe-se imerso em um conflito político intenso entre secularistas e militantes islâmicos. Evidências de um [[http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u62069.shtml|conflito]] entre a secularização e a teocratização do Estado que tomou novo fôlego na recente história política da Turquia, terra natal de Pamuk, e que explora os problemas do radicalismo dos dois lados em destaque no conflito.''

''O trecho a seguir encontra-se no capítulo 14. É a fala de Hande acerca das pressões sobre seus atos e opiniões, e sobre o suicídio de sua amiga, Teslime.''

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"Por que você não conta a história, Hande?", disse Kadife. "Não há nada do que se envergonhar."

"Não, não é verdade. Há muito de que se envergonhar, e é por isso que quero falar sobre ela", disse Hande. Seus grandes olhos brilharam com uma alegria estranha. Ela sorriu como recordando um momento feliz e disse: "Faz exatamente quarenta dias que nossa amiga Teslime se suicidou. De todas as moças de nosso grupo, Teslime era a mais dedicada à luta pela religião e pela palavra de Deus. Para ela, o manto não era apenas um símbolo do amor a Deus: ele também proclamava sua fé e defendia sua honra. Nenhuma de nós jamais poderia imaginar que ela iria se matar. Apesar da pressão que sofria na escola e em casa para que se descobrisse - seu pai e seus professores não lhe davam trégua -, Teslime resistia bravamente. Ela estavva para ser expulsa da escola em seu terceiro ano de estudos, já perto de se formar. Então um dia seu pai foi procurado por gente da polícia; disseram-lhe que se ele não mandasse a filha para a escola sem o manto na cabeça, eles fechariam sua mercearia e o expulsariam de Kars.

"O pai a ameaçou de expulsar de casa, e quando essa tática falhou, ele começou a negociar o casamento dela com um policial de quarenta e cinco anos que perdera a mulher. As coisas tinham chegado a um ponto que o policial vinha à loja trazendo flores. Teslime ficou tão revoltada com aquele viúvo de olhos cinza, como ela própria nos contou, que estava pensando em descobrir a cabeça, se isso a pudesse livrar daquele casamento, mas ela simplesmente não conseguia tirar o manto.

"Algumas de nós concordaram que ela devia descobrir a cabeça para evitar se casar com o viúvo de olhos cinza, e algumas de nós dissemos: 'Por que você não ameaça seu pai com o suicídio?'. Eu fui uma das que mais a incitaram a isso. Eu não queria de modo algum que Teslime abandonasse o manto. Não sei quantas vezes disse a ela: 'Teslime, é muito melhor se matar do que descobrir a cabeça'. Mas eu dizia isso da boca pra fora, era só uma maneira de falar. Nós acreditávamos no que os jornais diziam - que as jovens suicidas se mataram porque não tinham fé, porque eram escravas do materialismo, porque eram infelizes no amor; o que eu estava tentando fazer era dar um susto no pai de Teslime. Teslime era uma jovem piedosa, por isso achei que ela nunca pensaria seriamente em suicídio. Mas quando ouvimos que ela se enforcara, fui a primeira a acreditar. E, o que é pior, eu sabia que, se eu estivesse em seu lugar, teria feito a mesma coisa."

(...)

"Quando eles notaram que muitas de nós estavam usando mantos na cabeça, mandaram uma mulher de Ancara para tentar nos convencer a tirá-los. Essa 'agente de persuasão" ficava na mesma sala horas a fio, conversando com cada uma de nós em particular. Ela perguntava coisas como "Seus pais batem em você? quantos irmãos você tem? Quanto seu pai ganha por mês? Que tipo de roupa você usava antes de adotar o traje religioso? Você gosta de Atatürk? Que tipo de quadro vocês têm nas paredes de sua casa? Quantas vezes por semana você vai ao cinema? Em sua opinião, os homens e as mulheres são iguais? Deus é maior do que o Estado, ou o Estado é maior do que Deus? Quantos filhos você quer ter? Você sofreu maus-tratos em casa?'. Ela nos fazia centenas de perguntas como essas, e anotava todas as nossas respostas preenchendo um longo formulário sobre cada uma de nós.

"Ela era uma mulher muito elegante - unhas pintadas, cabelos tingidos, cabeça descoberta, claro - e usava o tipo de roupa que a gente vê nas revistas, mas ao mesmo tempo ela era... como dizer?, simples. ainda que algumas perguntas suas nos fizessem chorar, nós gostávamos dela. Nós até torcíamos para que as ruas sujas de Kars não lhe causassem muitos problemas. Depois comecei a vê-la em meus sonhos. A princípio eu não prestava muita atenção neles, mas agora, sempre que tento imaginar-me andando por entre a multidão com os cabelos flutuando à minha volta, vejo-me como a 'agente da persuasão'. Nos olhos de minha mente sou tão elegante quanto ela, usando salto alto e vestidos ainda mais curtos que os dela, e os homens me olham com interesse. Acho isso agradável - e ao mesmo tempo muito vergonhoso."
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